quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA


Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.

Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas húmidas e chãs
com que em casa se cozinham perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.

O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono
se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.
 
 MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA
 
 

2 comentários:

  1. a voz que sai do escrever das mãos dessa mulher, da Maria do Rosário, é simplesmente, maravilhosamente: BRILHANTE!

    amigo, um beijo saudoso, num sorriso.

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  2. Há tempo para uma história
    que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
    serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
    como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono
    se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.

    bjinho.

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