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terça-feira, 30 de abril de 2013

Valentina Lisitsa /// (Chopin 24 Etudes DVD track)Op. 25 No. 12




Marcia.

De : David Mourão Ferreira

 
 
Só tu a cada instante nos declaras
que renegas a voz de quem divide
Que a única verdade é haver almas
terrível impostura haver países
Que tanto tens das aves o desgarre
como o expectante frémito do tigre
tanto o céu indiviso que há nas águas
quanto o múltiplo fogo que há no trigo
Que és igual e diversa em toda a parte
Que és do próprio Universo o que o sublima
Que nasces que te apagas que renasces
em procura da límpida medida
Que reges o mais puro e o mais alto
do que Deus concedeu às nossas vidas
 
 
 
 
Porque não te calas?
 
 

domingo, 28 de abril de 2013

Pablo Neruda // Quero-te Apenas Porque a Ti Eu Quero

 
 
 
  Não te quero senão porque te quero
e de querer-te a não querer-te chego
e de esperar-te quando não te espero
passa meu coração do frio ao fogo.
 
Quero-te apenas porque a ti eu quero,
a ti odeio sem fim e, odiando-te, te suplico,
e a medida do meu amor viajante
é não ver-te e amar-te como um cego.
 
Consumirá talvez a luz de Janeiro,
o seu raio cruel, meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego.
 
Nesta história apenas eu morro
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero, amor, a sangue e fogo.
 
Pablo Neruda, in "Cem Sonetos de Amor"
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

sábado, 27 de abril de 2013

Manuel de Sepulveda /// Gostar de ti


 

 
 
 
Tudo começou com o teu jeito,
 
E aquele trejeito
 
Meio desdenhoso meio atrevido,
 de uma mulher
 
Que já tinha o Mundo decidido,
 
E sabe claramente
 
O que quer e o que não quer….
 
Depois... Continuou na tua maneira
 
Feita de ternura quando me procuras…
 
De suavidade quando te entregas...
 
- Mesmo quando te negas -
 
De doçura… e de amizade...
 
Ou feita do riso e brincadeira
 a que nos damos,
 
Quando sozinhos nos amamos…
 
 
 
Mas foi nos teus olhos abertos...
 muito perto,
 
Quando me interrogavas deste
 segredo novo,
 
Agora descoberto,
 
Que neles eu li,
 
O que nunca encontrei
 
Em outras vidas que vivi !…
 
 
 
Manuel de Sepulveda
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Alexandre O'Neill //// Um Carnaval




Vem ao baile vem ao baile
Pelo braço ou pelo nariz
Vem ao baile vem ao baile
E vais ver como te ris

Deixa a tristeza roer
As unhas de desespero
Deixa a verdade e o erro
Deixa tudo vem beber

Vem ao baile das palavras
Que se beijam desenlaçam
Palavras que ficam passam
Como a chuva nas vidraças

Vem ao baile, oh tens que vir
E perder-te nos espelhos
Há outros muito mais velhos
Que ainda sabem sorrir

Vem ao baile da loucura
Vem desfazer-te do corpo
E quando caires de borco
A tua alma é mais pura

Vem ao baile vem ao baile
Pelo chão ou pelo ar
Vem ao baile baile baile
E vais ver o que é bailar.


Alexandre O'Neill

sexta-feira, 26 de abril de 2013

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Eugénio de Andrade /// Não canto porque sonho








Não canto porque sonho.
Canto porque és real.
Canto o teu olhar maduro,
O teu sorriso puro,
A tua graça animal.
Canto porque sou homem.
Se não cantasse seria 
somente um bicho sadio
embriagado na alegria
da tua vinha sem vinha.
Canto porque o amor apetece.
Porque o feno amadurece
nos teus braços deslumbrados.
Porque o meu corpo estremece
Por vê-los nus e suados.

Eugénio de Andrade


 

25 de Abril /////// DIA DA LIBERDADE

25 de Abril



Esta é a madrugada que eu esperava
o dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.


Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Amor /// Manuel Rui ( Poeta Angolano )




Assim de espuma e sal teu corpo a navegar
num meio-dia a onda e sol liberto
na conseguida fúria de estar perto
dia após dia para lá do mar.

assim nossa conquista de criar
na incerteza o que fazemos certo
um sol todos os dias mais desperto
dia após dia para lá do mar.

assim na fúria de saber amar
palavras poucas de um viver inquieto
nas noites esquecidas de luar.

assim como uma onda sempre a transformar
o amanhã numa manhã de afecto
dia após dia para lá do mar













terça-feira, 23 de abril de 2013

Carminho // Escrevi Teu Nome No Vento (Fado )





Fernando Pessoa // Eros e Psique

Eros e Psique

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino —
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

Fernando Pessoa


Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino —
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

Fernando Pessoa

Jorge de Sena // Denúncia




Sonharei, no teu seio calmo,
O sonho invisível do cego de nascença.
Dormirei, no teu cerrar de pálpebras,
Como um peixe desliza entre os ramos de árvore
Reflectidos na água.

Dormirei, nas tuas mãos pousadas no meu corpo,
O desejo de te acariciar sem perigo
- não vá tirar-te escamas, borboleta presa.

Dormirei, no teu sexo, a solidão do meu
Ao existir para que eu pense em ti.

Dormirei, na tua vida, a teimosia humana
De um sentido universal para as coisas connosco.

E se, depois, meu amor, formos estéreis,
Se a demora do tempo tiver tido um gesto abandonado,
E a morte, à nossa volta, um moleiro sem trigo,
O mundo que vier inveja-nos
E o nosso espírito há-de perdoar-nos.


Jorge de Sena

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Para te amar.....// Pedro Homem de Mello


Pedro Homem de Mello

Para te amar ensaiei os meus lábios...
Deixei de pronunciar palavras duras.
Para te amar ensaiei os meus lábios!

Para tocar-te ensaiei os meus dedos...
Banhei-os na água límpida das fontes.
Para tocar-te ensaiei os meus dedos!

Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!
Pus-me a escutar as vozes do silêncio...
Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!

E a vida foi passando, foi passando...
E, à força de esperar a tua vinda,
De cada braço fiz mudo cipreste.

A vida foi passando, foi passando...
E nunca mais vieste!




srsrsrsrsrsrsrsrsr
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

JOAQUIM PESSOA, Conta comigo sempre!..., voz de Jorge Brandão

domingo, 21 de abril de 2013

Espelhos Sandra Subtil



Não me julgues pelo sorriso tímido
Há em mim uma força desmedida
(escondida)
Não me julgues pelo olhar frágil
Há em mim uma batalha constante
(oculta)
Não me julgues pelo andar pesado
Há em mim a leveza das nuvens
(disfarçada)
Não me julgues pelo corpo disforme
Há em mim a delicadeza das flores
(adormecida)
Não me julgues pelas palavras tristes
Há em mim uma alegria de vida
( contida)
Nada é o que parece.
Ninguém é o que se vê.
Atrás dos espelhos há sempre essência por revelar
Que por medo, cobardia, vergonha
ou pela simples condição humana
Vive hibernada à espera do sol chegar.







Namoro de cisne ao por do sol..suecia..





Cascata // Isabel Solano



Dos teus dedos, quando tocam teclas de água,
Escorre um rio que lava as minhas lágrimas
E me devolve os sonhos que quis ter um dia
Presentes, vivos, num rodopio tonto de euforia

Dos teus dedos, quando acordam calmarias,
Desprendem-se em cascata todas as fantasias
E rolam revoltas as minhas ideias – tão soltas –
Por entre os seixos dóceis e os juncos complacentes

Nos teus dedos me perco e encontro o curso fluido
Transparente, da minha alma que pensava ausente


in Sem nós na garganta, inédito, 2009
.


st

sábado, 20 de abril de 2013

És(me): tudo em tudo DANIELA S. PEREIRA




Semicerro os olhos
E vejo-te:
Na brisa suave
Que me afaga o rosto,
No brilho da Lua
Que me penetra a pele
E no aroma
Que me invade os sentidos...

Sinto-te:
No abraço
Do mar à terra,
No voo
Das gaivotas no céu
E no suave toque
Da areia dourada...

És(me): tudo em tudo
Na pele, um toque de veludo
E o sol que me aquece o coração...

in COM ALMA & OLHAR (Edium Ed., 2012)
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

sexta-feira, 19 de abril de 2013

De : São Reis

E embora nem sempre os meus olhos cruzassem os teus
eu sabia-te lá
tão perto e tão longe
como um vício que se quer deixar
mas que nos sacode de tanta vontade

eu sabia-te lá
bem debaixo da minha pele
o teu perfume passando rente às minhas narinas
e era como se sentisse a tua boca
aflorando a minha

E embora eu desviasse o olhar
eu sabia que tinhas os olhos cravados em mim
..porque é impossivel desviar o olhar
daquilo que se quer...

são reis




São rosas SR são rosas

quarta-feira, 17 de abril de 2013

JOAQUIM PESSOA, POEMA PRIMEIRO




Gosto-te. E desta certeza
se abre a manhã como uma imensa
rosa de desejo indestrutível. O futuro
é o próximo minuto, para além
da infatigável religião dos meus versos,
em cuja luz me acendo, feliz e nu.
O meu sorriso conhece a bondade
dos animais, o poder frágil das corolas,
e repete o nome feminino dos arcanjos de
peitos redondos, perfumados
pelas giestas dos caminhos
do céu.
Gosto-te. Amarrado
pelos meus braços de beduíno do sol,
pobre senhor dos desertos,
profeta da distância que há dentro das palavras,
onde se alongam sombras
e o sofrimento se estende até à orla
da mais inquieta serenidade.
Gosto-te. E tenho sido
feliz, por nunca ter seguido os trilhos
que me quiseram destinar. Aqui
e ali me pergunto, despudoradamente. E sei
que não sei mentir. É por isso,
que recolho na face a luz imprescindível
ao orgulho dos peixes
e dos frutos.
Gosto-te. Na-na-na, na-ô...
Na-na-na, na-ô... na-nô...
Canta o espírito do caminho,
canta para mim e canta para ti, eleva
o coração das grandes árvores, coração
de seiva e de coragem,
sangue fresco e verde, apaixonado
e doce,
de tanto contemplar o perfil das tardes.
Gosto-te. Mas "longe"
é uma palavra húmida, grávida,
onde os sinos da erva tocam
para convocar as sílabas. E,
ao procurar-te, tremo apenas
de ternura
para que nem mesmo a inteligente brisa
da manhã
possa dar por mim.
Mais discreto que isto
é impossível.

in GUARDAR O FOGO ( Livro em preparação, 43 inéditos e uma antologia)

Imagem: Mark Arian, in Tutt'Art@
 
12

E . E . Cummings // Nalgum lugar me que eu nunca estive



nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto
teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa
ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;
nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira
(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas






















terça-feira, 16 de abril de 2013

De : São Reis

Ter a infinita paciência de apreciar
um nascer de dia
Agradecer por se estar vivo
Bendizer a natureza
apreciar as pessoas
as coisas
mesmo o que parece insignificante

Aceitar...sempre!
E se não se aceitar, transformar!...

Transformar o simples
mas tendo o cuidado de não estragar...

porque a beleza de tudo
das pessoas e das coisas
está precisamente nessa simplicidade de ser
de aceitar aquilo que vem...
..da forma como vem...!

são reis

Ilustração: Nascer do Sol , em foto tirada do Miradouro « Ponta da Madrugada » Ilha de São Miguel Açores

















segunda-feira, 15 de abril de 2013

De : Maria do Rosário Pedreira


         
Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.
  
No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida
    
foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama
   
e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos;
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.


 





De : Maria do Rosário Pedreira

Amei-te como na vida se ama uma só vez;
e todos os afetos que dividi depois eram
apenas cinzas que evocavam o brilho dessa
imensa chama. Troquei suspiros e beijos

com muitas outras bocas quando, na minha,
o travo da solidão era uma amarga desculpa
para repartir o pouco que não tinha; mas

em nenhuma quis morder fruto mais
suculento que o silêncio nem permiti que
pousasse sequer o meu nome verdadeiro -
que só nos teus lábios era graça e canção

e eco de loucura. Foi o meu corpo tão vão displicente
naqueles que o cingiram que me faria velha
a tentar recordar-lhes os gestos hesitantes,
as convulsões da pressa e os veios de sal que
descreviam no litoral da pele o aviso de uma
paisagem interior abandonada. Mas de nada

me serviu amar-te assim - pois, ao dizer-te o
que não pude ser longe de ti, digo-te o que sou
e isso há de guardar-te para sempre de voltares.


(Maria do Rosário Pedreira)

domingo, 14 de abril de 2013

De : Maria Helena Guimarães

Café Majestic - Porto
Ver tradução
Fantasia. @[100002079735449:2048:Maria Helena Guimarães]

Estavam sentados à mesa de tampo de mármore do Majestic. Os cafés descansavam frios, esquecidos. Nas mãos a ânsia do afago. O olhar liquefeito de desejo.
Tudo começara por uma brincadeira na net:

- De onde tc?

Depois fora a fantasia….

E agora, no ambiente arte-nova do café da baixa, tentavam reorganizar na realidade os sentimentos…

Pelas portas de vidro a claridade entrava mansa. Na mesa do canto um homem rabiscava no guardanapo de papel. Algum poeta a beber o ambiente de tertúlia de outrora….

Lá fora, na rua, o homem- estátua, coberto de alvaiade, ausente na sua imobilidade, negava o frio e o vento por alguns cêntimos…..

- Vamos à Foz ver o sol pôr? – a voz dela quebrou o silêncio pesado do que não se quer dizer…

Os trocos tamborilaram na mesa, sobrepondo-se ao sussurrar quente do ambiente. Empurraram a porta e caminharam lado a lado pela rua empedrada que fazia doer os pés.

- Lembras-te do eléctrico? Aquele que fazia a marginal? –  a pergunta dele atirou-os para a mocidade, dependurados do eléctrico, as bocas cheias de riso, o vento a esvoaçar os cabelos…

Mas já não havia. Agora um autocarro cheio de gente, suada e apressada, empurrando-se numa conquista do futuro, fazia o caminho em arranques e travagens que enrolavam o estômago.

Na Foz o pôr do sol de rio-mar era esplêndido. Sentaram-se na esplanada e beberam os raios vermelho sangue que caminhavam até eles nas ondas mansas.

Entrelaçaram as mãos na conjugação da poesia dos corpos e do rubro sol que se afundava no mar…lá ao longe, no cais, os pescadores, pacientemente, lançavam as linhas para apanhar robalos…

A noite tombou calma e sem pressa. Foram conversando sem pressa. Foram-se avaliando sem pressa…

Jantaram na Ribeira. Num restaurantezinho cavado na rocha onde, nas mesas de bancos corridos, o vinho tinto se bebia em canecas cheias de espuma e o cardápio se lia numa lousa espetada na parede.

Os olhos incendiavam o corpo. A fome era pouca. 

O rio em maré vasa deslizava por entre os rebelos de exposição. Do outro lado as pequenas barracas nas esplanadas do vinho do Porto.

- Vamos beber um copo? – E atravessaram a ponte velha de ferro.

Da esplanada via-se o Porto. Ao longe o rio a beijar o mar. O casario amarelo  subindo a encosta como um presépio. Uma calma feita de passado e recordações. Perto da barra, na colina, o Convento de Monchique onde Mariana de Alcoforado viu partir barra fora para as galés  Simão Botelho, no apaixonado livro de Camilo “Amor de Perdição”

Os músicos tocavam anos sessenta….Compraram uma rosa vermelha que trazia no pé, enrolado, um poema de Florbela: Meus nervos, guizos de oiro a tilintar/cantam-me na alma a estranha sinfonia/ da volúpia, da mágoa e da alegria,/que me faz rir e que me faz chorar.

O vinho do Porto, dourado, macio e encorpado, aquecia-lhes o corpo e desprendia-lhes o sentimento…

Levantaram-se e enlaçados partiram pelas ruelas rumo à noite….

Maria Helena Guimarães

 

 MAJESTIC – O café mais famoso do Porto e um dos mais belos do mundo. Conta a história do Porto da “Belle Epoque”, dos escritores e artistas, das tertúlias políticas e do debate de ideias. Obra do arqt. João Queirós, foi inaugurado em 1921. Amadeu de Sousa Cardoso, Teixeira de Pascoais e José Régio foram presenças constantes. Restaurado em 1994, manteve o seu traçado em arte-nova – tectos em gesso pintado de dourado e trabalhado, magníficos espelhos de cristal de Antuérpia nas paredes, chão de mármore indiano. Lustres de grandes dimensões dão uma luz difusa e as mesas têm tampos de mármore
Fantasia. Maria Helena Guimarães

Estavam sentados à mesa de tampo de mármore do Majestic. Os cafés descansavam frios, esquecidos. Nas mãos a ânsia do afago. O olhar liquefeito de desejo.
Tudo começara por uma brincadeira na net:

- De onde tc?

Depois fora a fantasia….

E agora, no ambiente arte-nova do café da baixa, tentavam reorganizar na realidade os sentimentos…

Pelas portas de vidro a claridade entrava mansa. Na mesa do canto um homem rabiscava no guardanapo de papel. Algum poeta a beber o ambiente de tertúlia de outrora….

Lá fora, na rua, o homem- estátua, coberto de alvaiade, ausente na sua imobilidade, negava o frio e o vento por alguns cêntimos…..

- Vamos à Foz ver o sol pôr? – a voz dela quebrou o silêncio pesado do que não se quer dizer…

Os trocos tamborilaram na mesa, sobrepondo-se ao sussurrar quente do ambiente. Empurraram a porta e caminharam lado a lado pela rua empedrada que fazia doer os pés.

- Lembras-te do eléctrico? Aquele que fazia a marginal? – a pergunta dele atirou-os para a mocidade, dependurados do eléctrico, as bocas cheias de riso, o vento a esvoaçar os cabelos…

Mas já não havia. Agora um autocarro cheio de gente, suada e apressada, empurrando-se numa conquista do futuro, fazia o caminho em arranques e travagens que enrolavam o estômago.

Na Foz o pôr do sol de rio-mar era esplêndido. Sentaram-se na esplanada e beberam os raios vermelho sangue que caminhavam até eles nas ondas mansas.

Entrelaçaram as mãos na conjugação da poesia dos corpos e do rubro sol que se afundava no mar…lá ao longe, no cais, os pescadores, pacientemente, lançavam as linhas para apanhar robalos…

A noite tombou calma e sem pressa. Foram conversando sem pressa. Foram-se avaliando sem pressa…

Jantaram na Ribeira. Num restaurantezinho cavado na rocha onde, nas mesas de bancos corridos, o vinho tinto se bebia em canecas cheias de espuma e o cardápio se lia numa lousa espetada na parede.

Os olhos incendiavam o corpo. A fome era pouca.

O rio em maré vasa deslizava por entre os rebelos de exposição. Do outro lado as pequenas barracas nas esplanadas do vinho do Porto.

- Vamos beber um copo? – E atravessaram a ponte velha de ferro.

Da esplanada via-se o Porto. Ao longe o rio a beijar o mar. O casario amarelo subindo a encosta como um presépio. Uma calma feita de passado e recordações. Perto da barra, na colina, o Convento de Monchique onde Mariana de Alcoforado viu partir barra fora para as galés Simão Botelho, no apaixonado livro de Camilo “Amor de Perdição”

Os músicos tocavam anos sessenta….Compraram uma rosa vermelha que trazia no pé, enrolado, um poema de Florbela: Meus nervos, guizos de oiro a tilintar/cantam-me na alma a estranha sinfonia/ da volúpia, da mágoa e da alegria,/que me faz rir e que me faz chorar.

O vinho do Porto, dourado, macio e encorpado, aquecia-lhes o corpo e desprendia-lhes o sentimento…

Levantaram-se e enlaçados partiram pelas ruelas rumo à noite….

Maria Helena Guimarães



MAJESTIC – O café mais famoso do Porto e um dos mais belos do mundo. Conta a história do Porto da “Belle Epoque”, dos escritores e artistas, das tertúlias políticas e do debate de ideias. Obra do arqt. João Queirós, foi inaugurado em 1921. Amadeu de Sousa Cardoso, Teixeira de Pascoais e José Régio foram presenças constantes. Restaurado em 1994, manteve o seu traçado em arte-nova – tectos em gesso pintado de dourado e trabalhado, magníficos espelhos de cristal de Antuérpia nas paredes, chão de mármore indiano. Lustres de grandes dimensões dão uma luz difusa e as mesas têm tampos de mármore

De . Hamilton Afonso



Há coisas que não estão ao alcance
das minhas palavras dizer-te

Experimentarei fazê-lo
no calor do meu abraço
e no olhar-te olhos nos olhos

Então tomarás conhecimento
do quanto te amo, do quanto
te quero




, O Canto e as armas // Manuel Alegre


É possível falar sem um nó na garganta.
É possível amar sem que venham proibir.
É possível correr sem que seja a fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão.
É possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros.
Se te apetece dizer não, grita comigo: não!

É possível viver de outro modo.
É possível transformar em arma a tua mão.
É possível viver o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre, livre, livre.

, O Canto e as armas


 LETRA PARA UM HINO
 Foto: LETRA PARA UM HINO    Manuel Alegre    É possível falar sem um nó na garganta.  É possível amar sem que venham proibir.  É possível correr sem que seja a fugir.  Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.    É possível andar sem olhar para o chão.  É possível viver sem que seja de rastos.  Os teus olhos nasceram para olhar os astros.  Se te apetece dizer não, grita comigo: não!    É possível viver de outro modo.  É possível transformar em arma a tua mão.  É possível viver o amor. É possível o pão.  É possível viver de pé.    Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.  É possível viver sem fingir que se vive.  É possível ser homem.  É possível ser livre, livre, livre.    , O Canto e as Armas







sábado, 13 de abril de 2013

Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo


Larissa III



Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo
nem fazer explodir a madrugada nos teus olhos.

Eu quero apenas amar-te lentamente
como se todo o tempo fosse nosso
como se todo o tempo fosse pouco
como se nem sequer houvesse tempo.

Soltar os teus seios.
Despir as tuas ancas.
Apunhalar de amor o teu ventre.

Joaquim Pessoa

sexta-feira, 12 de abril de 2013

SE EU PUDESSE...// Manuel Sepúlveda




Se eu pudesse ...
Dava-te aquele momento de alegria
Que à Vida dá sentido....
Quando com excitação
E alguma loucura no coração
Acreditamos ter vencido
A solidão... e com ela a agonia
De viver, continuamente,
Como se a alma estivesse vazia...

Depois...
Devolvia-te a ti própria…
E de seguida,
Mesmo que mais não fizesse...
Havia de morrer contente
Com tua imagem de uma mulher feliz...
Sempre presente...

E eu...porque tanto quis
Que pelo menos um dia ...
Pudessemos estar juntos... os dois!
NOTA :

Se eu pudesse !...
Ah!...Como eu queria!...
 
 
 
SE EU PUDESSE...        Se eu pudesse ...  Dava-te aquele momento de alegria   Que à Vida dá sentido....  Quando com excitação   E alguma loucura no coração   Acreditamos ter vencido   A solidão... e com ela a agonia   De viver, continuamente,   Como se a alma estivesse vazia...    Depois...  Devolvia-te a ti própria…  E de seguida,  Mesmo que mais não fizesse...  Havia de morrer contente  Com tua imagem de uma mulher feliz...   Sempre presente...    E eu...porque tanto quis  Que pelo menos um dia ...  Pudessemos estar juntos... os dois!    Se eu pudesse !...  Ah!...Como eu queria!...           Manuel Sepúlveda*        Ilustração: Escultura de Yves Pires*
 
 
 

quinta-feira, 11 de abril de 2013

MAR DE PALAVRAS // Sandra Subtil





Mastigo as palavras que me beijam, serenas, a face dos sonhos.
Há nelas aroma de almíscar e textura inusitada.
Deixo-me envolver no mar de sensações que brotam de cada brilho destrela,
de cada suspiro de fonte.
Naufraga de mim, não procuro a margem.
Por vezes urge afogar-se nas águas da emoção,
morrer na asfixia dos sentidos
para saber que somos gente,
temos coração
e estamos vivos.





Joaquim Pessoa // O Amor é...

Joaquim Pessoa Joaquim Pessoa Portugal n. 1948 Poeta
O Amor é... O amor é o início. O amor é o meio. O amor é o fim. O amor faz-te pensar, faz-te sofrer, faz-te agarrar o tempo, faz-te esquecer o tempo. O amor obriga-te a escolher, a separar, a rejeitar. O amor castiga-te. O amor compensa-te. O amor é um prémio e um castigo. O amor fere-te, o amor salva-te, o amor é um farol e um naufrágio. O amor é alegria. O amor é tristeza. É ciúme, orgasmo, êxtase. O nós, o outro, a ciência da vida.
O amor é um pássaro. Uma armadilha. Uma fraqueza e uma força.
O amor é uma inquietação, uma esperança, uma certeza, uma dúvida. O amor dá-te asas, o amor derruba-te, o amor assusta-te, o amor promete-te, o amor vinga-te, o amor faz-te feliz.
O amor é um caos, o amor é uma ordem. O amor é um mágico. E um palhaço. E uma criança. O amor é um prisioneiro. E um guarda.
Uma sentença. O amor é um guerrilheiro. O amor comanda-te. O amor ordena-te. O amor rouba-te. O amor mata-te.
O amor lembra-te. O amor esquece-te. O amor respira-te. O amor sufoca-te. O amor é um sucesso. E um fracasso. Uma obsessão. Uma doença. O rasto de um cometa. Um buraco negro. Uma estrela. Um dia azul. Um dia de paz.
O amor é um pobre. Um pedinte. O amor é um rico. Um hipócrita, um santo. Um herói e um débil. O amor é um nome. É um corpo. Uma luz. Uma cruz. Uma dor. Uma cor. É a pele de um sorriso.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'
 








terça-feira, 9 de abril de 2013

Fátima Porto // É ASSIM....




É assim com esse olhar
Que te quero
Um olhar doce e meigo
De uma cor que nem sei definir

É assim neste pranto
Que meus olhos te vêm
E meu peito te sente
Mágoas de um amor ausente

É assim que me dou
No silêncio das noites sem ti
Que vejo teus olhos em mim
Num querer ainda maior

É assim nosso amor suave
Como nuvem que passa ligeira
Aquecido pelos raios d’um sol de verão
E regado com lágrimas por não poder gritar:
Nosso Amor é Assim!


Fátima Porto
Texto registado e protegido pelo IGAC







domingo, 7 de abril de 2013

CANÇÃO DE AMOR /// Hermann Hesse

.



Tu és a corça e eu o cervo,
pássaro tu e eu a árvore,
o sol tu e eu a neve,
tu és o dia e eu o sonho.

De minha boca adormecida à noite
um pássaro de ouro voa a ti:
tem a voz clara, multicolores asas,
e vai cantar-te a canção do amor
- e vai cantar-te a canção de mim.

FAUSTO // ATRAZ DOS TEMPOS , OUTROS TEMPOS ONDE VIR.....








I hope to come over ...

Poema para uma Saudade /// Fernanda Guimarães



Tudo em mim és tu
Quando a solidão cala-me a voz
E o olhar debruça-se sobre o mistério
Onde o amor e o sonho
Sussurram-me o que tanto sei
Uma intuição de gestos flagra-me os segredos
Anunciando-te no horizonte da saudade
Em vão interroga-me a tarde morna
Enquanto os abraços aconchegam-me em lembranças
E apenas o silêncio responde a minha inquietação
Para além de mim
Onde se cruzam pensamentos e anseios
Volta-se o meu olhar
Como se pronunciasse o teu nome
Cobre-se o céu em vigília
Com o manto negro da noite
Como se também ele aguardasse
O som dos teus passos
Para iluminar todo o meu universo




Momentos...







sábado, 6 de abril de 2013

APETECE-ME // Fátima Porto



Teus beijos doces
Que embalam o repouso
Na vontade serena
De juntos estarmos
Em tão grande afeição

Olhares que percorrem
Caminhos secretos
E mãos que leem
O sentir dos corpos
No encaixe perfeito

Quero adormecer
Em teu abraço
E sentir no silêncio
O calor do amor

Suavemente sorrindo…



LÍLIA TAVARES, in PARTO COM OS VENTOS (a publicar em 2013) [HOJE ACORDEI COM A DOR DAS ÁRVORES]

Sophia de Mello Breyner Andresen.
LÍLIA TAVARES, in PARTO COM OS VENTOS (a publicar em 2013)

[HOJE ACORDEI COM A DOR DAS ÁRVORES]

Hoje acordei com a dor das árvores;
estou de pé e o meu tronco sustém
o vazio e a solidão dos ramos
côncavos de espera,
impacientes de ternura.
Quero o bracejar dos pássaros,
ser refúgio dos ventos que me procuram,
tornar-me na folhagem que te abriga,
ser o ninho na tua noite, aberto
com a inquietação e a serenidade
dos rumores das aves mais tardias.
Não, desta vez não vou ...

*
Imagem sem identificação
in: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=475016159235789&set=a.337019419702131.73707.218221341581940&type=1&theater
*

(LT)


Hoje acordei com a dor das árvores;
estou de pé e o meu tronco sustém
o vazio e a solidão dos ramos
côncavos de espera,
impacientes de ternura.
Quero o bracejar dos pássaros,
ser refúgio dos ventos que me procuram,
tornar-me na folhagem que te abriga,
ser o ninho na tua noite, aberto
com a inquietação e a serenidade
dos rumores das aves mais tardias.
Não, desta vez não vou ...

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Meus olhos verdes de João-Maria Nabais




Eu sonho acordado
muitas vezes sem dar por isso
olhando o infinito
através dos meus olhos verdes
nem sempre verdes é certo
às vezes azuis
outras cinzentos
variando durante o dia
conforme a intensidade da luz
do sol ou das estrelas
passando a verde se escuto
- o silêncio do mar longo e profundo
e o canto das cigarras
em noite cheia de lua

cinzento é um tempo de ninguém
vindo de fora sem prever

azul o rosto da manhã
de um instante de saudade escrito na memória

verde a força que deposito
no amor e me alimenta o coração

os meus olhos são verdes
azuis ou cinzentos ?
a mim pouco importa
aos outros também

verde é simplesmente
a cor do momento
- um símbolo de esperança
sortilégio de olhar
e ver o mundo
em mais um dia que vivo
e sinto

João-Maria Nabais

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Como el primer día / Alberto Cortez





QUE LINDAS PALAVRAS, É UMA VERDADEIRA CANÇÃO DE AMOR....

Quero-te para além das coisas justas



Quero-te para além das coisas justas
e dos dias cheios de grandeza.
A dor não tem significado quando ma roubam as árvores,
as ágatas, as águas.
O meu sol vem de dentro do teu corpo,
a tua voz respira a minha voz.
De quem são os ídolos, as culpas, as vírgulas
dos beijos? Discuto esta noite
apenas o pudor de preferir-te
entre as coisas vivas

Esquecer a Crise


Camané - Sei de um rio //// FADO





NOTA :

             COMO TENHO VISITAS  DE  EXPRESSÃO  ESPANHOLA  ; COLOCO

             ESTE COMENTARIO  NESSA MESMA LINGUA....

             QUE ME DESCULPEM  OS  VISITANTES DO BRASIL E DE OUTROS

             PAISES.

(((((((
NO IMPORTA EL IDIOMA PARA UN EXPRESAR UN SENTIMIENTO, EN CUAL QUIER LENGUA EL AMOR ES BELLO EXPRESARLO. BASTA DARLE LA FUERZA QUE SALE DEL CORAZON ENAMORADO PARA DARNOS CUENTA LA SENSACION DE LAS PALABRAS, QUE BELLO ES OIR ESTA MELODIA.
((((((  





FERNANDO TORDO // SOU DE OUTRAS COISAS



Sou de outras coisas
pertenço ao tempo que há-de vir sem ser futuro
e sou amante da profunda liberdade
sou parte inteira de uma vida vagabunda
sou evadido da tristeza e da ansiedade

Sou doutras coisas
fiz o meu barco com guitarras e com folhas
e com o vento fiz a vela que me leva
sou pescador de coisas belas, de emoções
sou a maré que sempre sobe e não sossega

Sou das pessoas que me querem e que eu amo
vivo com elas por saber quanto lhes quero
a minha casa é uma ilha é uma pedra
que me entregaram num abraço tão sincero

Sou doutras coisas
sou de pensar que a grandeza está no homem
porque é o homem o mais lindo continente
tanto me faz que a terra seja longa ou curta
tranco-me aqui por ser humano e por ser gente

Sou doutras coisas
sou de entender a dor alheia que é a minha
sou de quem parte com a mágoa de quem fica
mas também sou de querer sonhar o novo dia

in Álbum ANTICICLONE, 1984
 
 
 
 
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